Porque se não fosse o gajo...
Enquanto o meu irmão dava os primeiros passos numa carreira de cançonestista que teve como pontos altos as diversas reinterpretações do jingle do Shopping Center Amoreiras e um concerto impromptu no Tokyo Disney Sea, acompanhado de seu filho mais velho, qual Jorge e Alyson Ferreira; enquanto o meu irmão e um vizinho que também por aí anda militavam nessa vida desgraçada que é o rock, eu curtia o Sequim d'Ouro. Mais ou menos... Sempre achei que o "Atchim" do João Nuno era uma boa merda e que o petiz era um bocado fanhoso. (Onde andas tu, João Nuno? O que é feito? Amancebaste-te com a Maria Armanda? O senhor italiano mexeu-te?) O apreço por tal certame, su/repositório de hinos à castração mental, convivia em mim pacificamente com a aspiração maior da minha vida enquanto jovem bezerro de 4 anos: ser o baterista dos Kiss. Não, não me caía o pé para experimentar pinturas faciais; o que me estimulava era fazer baterias com caixas de papelão e tampas de Tofina. Porquê os Kiss? Porque ainda não sabia melhor - e porque houve, temporariamente, um disco emprestado ao mê'irmão por outro estarola qualquer.
Meses depois, é-me conferida a graça de poder escolher, pela primeira vez, um disco para eu ouvir na fidelíssima Waltham. Assediado com uma colecção de singles da Amália e com o injustamente esquecido 33 rotações da insigne Festada da Trofa, eis que, para desconcerto do ofertante (senhor meu pai), eu pego com desvelo e carinho no "New Gold Dream 81-82-83-84" dos Simple Minds - pertença, este, do mano mais velho. Belo disco, ainda hoje.
Ou seja: o lado das trevas, personificado na Gala dos Pequenos Cantores da Figueira da Foz, ía sendo compensado pelos passos que o nobre autor das linhas deste blog tão bem soube descrever. Fui ver: era o budismo; em prática... A interdependência de toda a existência... O "mutual arising" conforme traçado pelo Alan Watts... O mano mais velho ouvia e eu, por uma espécie de osmose, prosperava. Grande vantagem da infância: ouve-se tudo, literalmente tudo; o julgamento é uma coisa que aparece trazida pelos pintelhos - e que, nos casos mais sãos, se esvai quando outra pelagem começa a branquear. Imagem perigosa, esta, já que estabelece a possibilidade de ter que assumir que, nos anos do julgamento, se me assomou uma frondosa pintelheira analógica, tomada de amores pelos sintetizadores monofónicos, pelas desconstruções brancas da soul e por tudo quanto fosse vagamente melancólico. (Não surpreenderia: a professora primária não augurava nada de bom quando a minha veia existencialista pulsava em todo o esplendor em bonitas redacções sobre o cíclico suicídio das castanhas.)
Por causa do meu irmão (deste e do outro, que escorava o edifício teórico facultando excelente material de leitura), eu cresci assim, como diria a Gabriela. Nascido em 76, tive a sorte de viver os anos 80 com (e como) quem os começou com 18 anos (mais mês menos mês). E cresci assim mesmo, com todo o apelo da música enquanto produto e sem livros do Eurico A. Cebolo. A fazer sing-along com 'os discos que traziam as letras'; a aprender inglês para 'conseguir perceber'; a gostar mais disto que daquilo mas sempre olhando os discos - qualquer que fosse o suporte - como um objecto de excepção. (E de desejo, porra. O meu sonho mais recorrente, de entre os prazenteiros, é estar numa loja de discos a vasculhar estantes infindáveis...)
Claro: não foi só isso, foi muito mais. Mas se não fosse o gajo, eu certamente não estaria em condições para escrever quatro páginas sobre o contributo do Warren Cann, baterista dos Ultravox, para o desenvolvimento daquilo a que pomposamente intitulei "O cânone branco do tambor marcial" e que aponta, através de ditados rítmicos, o claro contínuo de expressão entre a Odisseia de Homero, Haendel, Strauss, os Zés Pereiras, a Banda Filarmónica A Nabantina e os Ultravox. É este documento que vos deixo agora, em pré-publicação.
Ou talvez não... Ficam só estas 'cantigas', em jeito de 'obrigadinhos é o que eu lhe desejo'...







